7. ARTES E ESPETCULOS 30.1.13

1. CINEMA  A VIRTUDE DO EXAGERO
2. CINEMA  NO DESERTO DA ALMA
3. CINEMA  PICADINHO DE BRUXA
4. TELEVISO  FALTA MULHER DE VERDADE
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  ATO FINAL

1. CINEMA  A VIRTUDE DO EXAGERO
Os Miserveis carrega nas tintas, na encenao, na crueza das performances  e  esse elemento de choque e excesso que o torna to singular e, ao menos para parte da plateia, to empolgante.
ISABELA BOSCOV

	Les Misrables, o musical escrito pelos franceses Alain Boublil e Claude-Michel Schnberg em 1980, foi traduzido para 22 idiomas, encenado em 42 pases (entre os quais o Brasil) e visto por 60 milhes de espectadores (algo como a metade dos ingressos de cinema vendidos em todo o mundo para Titanic  ou seja, um nmero estratosfrico para os parmetros do teatro). S perde em tempo em cartaz para Cats e O Fantasma da pera, e suas canes mais clebres, como I Dreamed a Dream e On My Own so familiares at a quem nunca as ouviu no palco. Se projees ento tivessem qualquer valor na indstria do entretenimento, a adaptao de Les Mis pelo diretor ingls Tom Hooper, que dois anos atrs levou o Oscar por Discurso do Rei, seria uma unanimidade lquida e certa. Bem ao contrrio, porm, Os Miserveis (Les Misrables, Inglaterra, 2012), que estreia no pas nesta sexta-feira, rachou tanto o pblico quanto a crtica, a despeito de sua penca de indicaes ao Oscar.  um consenso que a interpretao de Anne Hathaway para I Dreamed a Dream  um colosso. E j a se encerram os consensos: nem a voz vacilante de Russel Crowe, que duas ou trs vezes chega s notas certas e todas as outras vezes passa longe delas, ganhou desaprovao universal. E no deveria mesmo ganha-la: uma certa medida de imperfeio  ou de rudo, ou de choque, como se queira descrever  faz parte do plano de Tom Hooper e  o que, na sua viso, torna viva e imediata a transposio do musical para o cinema. A questo, portanto,  se o espectador h de endossar, ou no, essa viso.
     Se na televiso Tom Hooper se revelou um mestre da discrio  na excelente minissrie John Adams, por exemplo , no cinema, como visto no reiterativo O Discurso do Rei, ele no  homem de sutilezas. A matria-prima ao seu dispor, assim, se casa com a sua sensibilidade. O romance de Victor Hugo, publicado em 1862, ferve de indignao com a misria social da Frana ps-Revoluo: o protagonista Jean Valjean (no filme, Hugh Jackman) passa dezenove anos na priso por furtar um po. Liberto, continua a ser perseguido pelo policial Javert (Russell Crowe), que acha que ser humano nenhum  capaz de mudar  em particular se for para melhor. Valjean, porm, tem um momento de epifania ao ser acolhido por um bispo, e decide dedicar a vida a aliviar o sofrimento de outros.  assim que seu caminho se cruza com o da desafortunada Fantine (Anne Hathaway), que cai na prostituio para sustentar a filha, Cosette (Amanda Seyfried). Fantine morre, Valjean cria Cosette como sua  e ela e o jovem revolucionrio Marius (Eddie Redmayne) apaixonam-se perdidamente, conduzindo a uma apoteose entre as barricadas do levante de junho de 1832 em Paris. Essas emoes simples, bsicas at, so material ideal para musicais como Les Mis, em que o enredo est todo contido nas canes: os poucos dilogos que comeam como tal viram msica em questo de meia dzia de palavras. Tampouco h dana em Les Mis (felizmente): sua espinha dorsal  forjada unicamente a partir do casamento das letras com um punhado de temas musicais fortes que se vo entretecendo ao longo da narrativa.
     A performance do elenco e a potncia da encenao, portanto, so cruciais. E  sobre esses dois aspectos que as opinies se dividem. Tom Hooper adotou um procedimento comum nos musicais dos anos 30 e 40. O de captar o canto dos atores ao vivo (hoje o costume  primeiro grav-lo em estdio e depois fazer os atores dubl-lo em cena). Com duas diferenas: a orquestrao da msica foi finalizada sobre a voz gravada, para melhor se acomodar a ela e reala-la. E os atores foram orientados a buscar, antes da perfeio vocal, a emoo do momento. Outras alteraes decisivas: s h planos abertos em Os Miserveis (e a eles so grandiosos, feitos a partir de ngulos improvveis) quando ningum est cantando, ou quando h um coro em cena. Em todos os outros casos, a cmera (vrias cmeras, na verdade, para que nenhum detalhe se perca)  enfiada de maneira invasiva na cara dos protagonistas. O efeito combinado dessas tticas  o de aniquilar o proscnio, aquela linha de frente do palco em que o mundo dos atores e o olhar da plateia se encontram. Nada  mais antittico ao teatro do que o close-up, ainda mais nu e cru como registrado aqui, ou a vista vertiginosa de uma cena a partir do alto.  com esses elementos que o diretor joga, criando o que uma parte da plateia define como desconforto e a outra, como arrebatamento.
     Vota-se, aqui, a favor do arrebatamento. Anne Hathaway, Hugh Jackman, Eddie Redmayne e a novata Samantha Barks, a triste ponine, que ama o estudante Marius em silncio, tm interpretaes vocais fabulosas, tanto mais envolventes pelas suas asperezas e imprevistos. Em contraste, Amanda Seyfried, que trina como um passarinho, nunca entusiasma, enquanto Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, condenados ao teatro de revista no papel de um casal de trapaceiros, meramente irritam. O diretor s vezes pesa a mo, outras vezes se repete, noutras vezes ainda  sobrepujado pela magnitude de suas pretenses. H muito rudo, portanto, em Os Miserveis. E  ele, o rudo, que faz deste um musical to empolgante. 

As indicaes
Filme
Ator  Hugh Jackman
Atriz coadjuvante  Anne Hathaway
Cano original  Suddenly
Desenho de produo
Mixagem de som
Figurino
Maquiagem


2. CINEMA  NO DESERTO DA ALMA
A sensao de assistir a O Mestre  a de estar preso dentro da cabea do diretor Paul Thomas Anderson: uma experincia intensa e incmoda, mas insubstituvel.
ISABELA BOSCOV

     Em algum lugar do Pacfico Sul, Freddie Quell e os outros marujos americanos vivem aquele desespero peculiar do fim prolongado de uma guerra (a II Guerra, no caso), ao mesmo tempo em constante suspenso e descontroladamente realizado: Freddie corta cocos e despeja dentro deles substncias qumicas  qualquer coisa, de leo de mquina a solvente de tinta  a ttulo de coquetel, mata tempo freneticamente com seus companheiros na praia, molda junto com eles uma mulher de areia, em detalhes anatmicos completos, e ento, para hilaridade e simultneo desconforto de sua plateia, simula com ela um ato sexual to febril que est claro que a divisa entre realidade e imaginao no lhe  mais discernvel. Freddie, no estupendo O Mestre (The Master, Estados Unidos, 2012), desde sexta-feira em cartaz, existe nessa fronteira entre suspenso e descontrole, mas nunca consegue se equilibrar sobre ela: despenca ora para um lado, ora para o outro, numa alternncia calamitosa de imploses e exploses. Da mesma forma, o espectador est, durante as duas horas e meia do filme de Paul Thomas Anderson, aprisionado entre essas foras que por vezes se somam e outras vezes se tensionam: para efeitos sensoriais, no h porta de sada no espao saturado e incmodo que se forma entre a mente do diretor e a interpretao de Joaquin Phoenix  uma interpretao estranha, estilizada, histrinica, mas devastadora.
     Em algum momento, e no est claro se foi j antes da guerra ou no seu decorrer, a alma de Freddie foi obliterada. Ele  algo, uma criatura no descrita, vivendo dentro de um corpo que veste como se fosse um terno ruim, no qual  impossvel encontrar conforto. Sempre torcido em posturas antinaturais, Freddie  visto no priplo que para ele se seguir  guerra: no hospital psiquitrico, como fotgrafo de uma loja de departamentos, colhendo repolhos no norte da Califrnia entre imigrantes ilegais  sempre tentando deixar para trs a coisa em que ele se tornou, mas da qual no pode fugir. Numa noite de 1950, Freddie, enlouquecido por seus coquetis txicos, entra num navio ancorado em um cais de So Francisco, atrado pelas luzes da embarcao. Acorda, na manh seguinte, com o autointitulado Mestre cara a cara com ele: Lancaster Dodd, no desempenho sinuoso de Philip Seymour Hoffman,  um golpista cuja crena nos prprios golpes o filme habilmente se recusa a quantificar. Definindo-se para Freddie como comandante deste navio, escritor, mdico, filsofo terico e fsico nuclear, Dodd  o fundador de uma seita/filosofia/culto/terapia que ele chama de A Causa.
     Parte da imprensa americana se apressou em concluir que o diretor decalcou Lancaster Dodd de L. Ron Hubbard (1911-1986), o fundador da cientologia, propondo como evidncia o fato de que A Causa tambm fala em almas de bilhes de anos e  um amontoado de bizarrices (Dodd, alm disso,  uma figura to escorregadia quanto Hubbard o foi). A inspirao  possvel e at provvel, mas Paul Thomas Anderson no est particularmente interessado em denunciar cultos que predam os fracos e os confusos.  na fuso desses dois homens, Freddie e Dodd, que sua ateno est fixada  na relao imprevisvel e intercambivel entre as pessoas que necessitam ser seguidas para que seu ego confirme sua existncia e aquelas pessoas que necessitam doar seu ego para tornar tolervel sua existncia. Qualquer concluso sobre as virtudes e os pecados de tal relao seria arbitrria: assim como a mulher de Dodd (Amy Adams, acrescentando mais uma performance matadora ao seu currculo), o espectador assiste  dana entre Freddie e Dodd com desconforto, com perplexidade e sem saber muito bem como decidir se aqui h mais de benefcio, por inesperado que ele parea, ou de desintegrao.
     Ainda que O Mestre no seja, no escopo pretendido e na integridade da execuo, o filme tremendo que foi Sangue Negro, o trabalho anterior de Anderson, este  um cineasta que filma como nenhum outro desde Stanley Kubrick. O que os equipara  a capacidade singular de manter o espectador  sua merc e envolv-lo em instabilidade e insegurana pelo simples desenho ou durao de um plano, o ngulo de que um ator  fotografado, um acorde da trilha sonora. Em todos os seus filmes (brilhantes, sem exceo), da estreia, com Jogada de Risco, em 1996, a Boogie Nights, Magnlia, Embriagado de Amor, Sangue Negro e agora O Mestre,  este o fator unificador: o mundo no  um terreno firme, e vive-se ou morre-se nele conforme se encontre, ou no, uma tbua de salvao. Ainda que de salvadora, propriamente, ela pouco ou nada tenha.

As indicaes
Ator  Joaquin Phoenix
Ator coadjuvante  Philip Seymour Hoffman
Atriz coadjuvante  Amy Adams


3. CINEMA  PICADINHO DE BRUXA
Em uma reviso do conto Joo e Maria, os irmos cevados na infncia por uma feiticeira viram justiceiros que combatem malefcios a bala, e com truculncia.

     No sculo XIX, ao ser publicada pelos irmos Grimm, os clebres autores alemes de histrias infantis, a fbula Joo e Maria sofreu cortes e acrscimos a fim de agradar ao pblico da poca. No conto original, nascido na tradio oral da Idade Mdia, as duas crianas eram abandonadas pelos prprios pais na floresta, j que no havia comida suficiente para toda a famlia, e acabavam prisioneiras de uma bruxa que as alimentava com doces a fim de engord-las e ento devor-las. Da mesma forma que em outra de suas popularssimas histrias, Branca de Neve, os Grimm introduziram uma madrasta malvada para justificar tal abandono e fizeram Joo espalhar migalhas de po pelo bosque  um meio de reencontrar o caminho de casa  para demonstrar a esperteza infantil diante da fraqueza dos adultos. Em vista dessa matria-prima, no  de admirar que Joo e Maria  Caadores de Bruxas (Hansel and Gretel: Witch Hunters, Alemanha/Estados Unidos, 2013), desde sexta-feira em cartaz no pas, seja um picadinho apimentado. Preparada  base de conto de fadas, filme de zumbis, sopapos, tiroteios, lminas afiadas, exploses e atordoantes perseguies em ritmo de videogame  e servida em 3D, naturalmente , a receita segue a linha gastronmica que ganhou o nome de mashup: a transformao de contedos originais a partir da mistura de fontes sem nenhum parentesco entre si (como se viu tambm no recente Abraham Lincoln  Caador de Vampiros).
     Quinze anos depois de assarem no forno a bruxa que os aprisionou  episdio mostrado em um rpido prlogo , Joo e Maria (Jeremy Renner e Gemma Arterton) agora so justiceiros celebrados em toda a Europa medieval, e contratados pelo burgomestre de uma aldeia s voltas com o desaparecimento de vrias crianas, vtimas da bela e desalmada Muriel (Famke Janssen), lder de uma cfila de feiticeiras carnvoras. Empunhando armas que, na verdade, seriam inventadas somente sculos depois, eles so arrogantes e desbocados como personagens de Quentin Tarantino. E so tambm imunes a qualquer tipo de bruxaria  muito embora Joo, devido ao excesso de doces ingerido na casa da bruxa, sofra de diabetes e necessite de injees dirias de insulina. H ainda um ogro (Derek Mears) que deveria ser do mal mas no resiste a Maria, alm de um jovem f ardoroso dos irmos e aspirante a caador de bruxas (Thomas Mann  o nome verdadeiro do ator, e no mais uma piada do roteiro destrambelhado). Alm da balbrdia generalizada, a inteno de atrair o pblico adolescente se materializa em uma breve cena de nudez, na trilha heavy metal e, sobretudo, no palavreado cheio de grias. A certa altura, uma Maria muito invocada dispara, devidamente auxiliada pela traduo da legenda em portugus: Voc s pode estar de zoeira. Pode ter certeza que sim. Maria.
MARIO MENDES


4. TELEVISO  FALTA MULHER DE VERDADE
O desprezo a uma regra elementar dos folhetins contribui para o clima morno de Salve Jorge: em vez de tipos femininos fortes, h uma carrada de personagens dbeis.
MARCELO MARTHE

     Morena, a favelada convertida em escrava sexual da novela Salve Jorge, j provou ser uma herona brigona. No comeo da atual trama das 9 da Rede Globo e, de novo, na tera-feira passada, a atriz Nanda Costa soltou o muque para cima de uma das vils da histria, Wanda (Totia Meirelles). O direto no estmago e o tapo no rosto levados por Wanda conferiram algum respiro a uma trama que no vem empolgando ningum. Mas o ibope de 37 pontos obtido na Grande So Paulo no captulo  um feito mixuruca diante do trilho mnimo de 40 pontos que a Globo espera para um folhetim das 9. Se o expediente consagrado de fazer a mocinha dar uma surra na vila resultou em cenas mornas,  porque Salve Jorge tropea em um fundamento elementar. Uma regra no escrita preconiza que as mulheres fortes so o esteio de uma novela. Como muitos lugares-comuns, esse tem respaldo na realidade. Personagens assim criam sintonia com as espectadoras. Desde sempre, mulheres que no perdem a fibra na adversidade tm sido a matria-prima dos melodramas. Morena e outros tipos femininos da novela de Gloria Perez vo na contramo disso. Ela pode ter fora bruta  mas no  uma mulher forte.
     Ao deixar seu grande amor em busca do sonho boboca de ganhar a vida como servial na Turquia, Morena caiu numa roubada anunciada. Ao retornar ao Brasil como mula do trfico, ela no conseguiu pedir socorro a ningum. Quando o fez, escolheu para ombro amigo  haja falta de intuio  a chefe da quadrilha responsvel por suas agruras. Lvia (Claudia Raia), a criminosa em questo, acabou matando sua amiga Jssica (Carolina Dieckmann) com um mtodo que amplia as contribuies de Gloria Perez ao besteirol das novelas  e olhe que, nessa matria, no h concorrncia para a autora. No banheiro de um hotel, em meio a um agitado desfile de moda, Lvia sacou uma seringa com um coquetel letal e cravou no pescoo de Jssica, que murchou como um joo-bobo furado. Sim, a perna trazia uma seringa letal em sua bolsinha. E eu saio sem ela para algum lugar? No nosso ramo, a gente nunca sabe quando vai precisar. justificou. Ao saber da morre da amiga, Morena lanou-se com fria sobre a vil errada: Wanda no tinha nada a ver com o peixe. Pior: Morena se consolou no ombro da assassina. A desculpa de que a mocinha no sabia dos desmandos ou no poderia denunci-los  furada. Para o espectador, fica a impresso de que ela  boc, e ponto.
     Em favor da mocinha,  foroso dizer que ela no destoa do padro sonso das mulheres de Salve Jorge. No se veem uma Nina, herona obcecada mas nada bobinha, uma Muricy nem muito menos uma Carminha, como em Avenida Brasil. Nem uma Tereza Cristina ou um Pereiro, de Fina Estampa  para ficar nas duas ltimas tramas das 9. A me de Morena, Lucimar (Dira Paes), namora o bandido que escravizou a filha. A delegada Hel (Giovanna Amonelli) mescla investigao criminal com badalao social. rica, a tenente ftil vivida por Flvia Alessandra, chora as pitangas amorosas enquanto limpa as coxias para os superiores. Nem as vils do para o gasto: Claudia Raia est to canastrona e apagada como Lvia que Totia Meirelles passou a ofusc-la num papel de sub da sub. Um brilho fugidio, por supuesto: Wanda  talvez um exemplo nico de vil que apanha mesmo sem ter culpa no cartrio. , coitada. 

ARROZ COM FEIJO BENFEITINHO
     Gloria Perez encontraria um bom exemplo em que se mirar logo ali, no horrio das 6. Enquanto Salve Jorge ostenta uma galeria de mulheres sonsas, Lado a Lado  dos estreantes Claudia Lage e Joo Ximenes Braga   um novelo de poca solidamente fincado numa dupla feminina forte. Ambientada nos anos 1910, a trama fala da amizade de duas moas avanadas para seu tempo. Laura (Marjonie Estiano)  filha da ex-baronesa e megera Constncia (Patrcia Pillar). Contra a vontade da me, ela se nega a viver um casamento de convenincia. Separada do marido  estigma pesado no Brasil do incio da Repblica  e decidida a trabalhar e ser independente, ela enfrenta o preconceito com altivez. Sua amiga Isabel (Camila Pitanga) no fica atrs em ousadia e destemor. Filha de um ex-escravo, a bela negra luta por condies dignas para os moradores do Morro da Providncia, uma das primeiras favelas do Rio de Janeiro. Alm disso, Isabel causa indignao ao levar os ritmos afrobrasileiros para os palcos da capital do pas. O que as duas mocinhas no levam  desaforo para casa. Laura j protagonizou um bate-boca pblico ao denunciar que sofreu uma tentativa de abuso sexual de um senador. Ao descobrir que Constncia roubou seu filho, Isabel deu um tabefe na vil e teve um rasgo de sinceridade chocante para uma descendente de escravos: disse que ela merecia ser aoitada no pelourinho. Com a cena, exibida no ltimo dia 16, Lado a Lado alcanou sua maior mdia no ibope, de 25 pontos.
     Ao fazerem direito o arroz com feijo, os autores acharam brecha para investir em outro atrativo: as plulas histricas e culturais. Escolhemos o perodo ps-Abolio porque foi ali que nasceu o Brasil de hoje, diz Claudia Lago (antes de se aventurar como noveleira, alis, ela j se devotava ao romance histrico: em 2009, lanou Mundos de Eufrsia, que trata da figura real do ttulo, a clebre namorada do abolicionista Joaquim Nabuco). Com certa licena potica, a trama passeia por episdios como as revoltas da Vacina e da Chibata. Tambm cita a obra de autores como Lima Barreto e Joo do Rio. Lado a Lado no  nenhuma Downton Abbey, a esplndida srie sobre as transformaes sociais na Inglaterra do incio do sculo XX. Mas vinga o espectador que anda entediado com as injees letais do horrio das 9.


5. VEJA RECOMENDA
 O PROFESSOR DO DESEJO, DE PHILIP ROTH (TRADUO DE JORIO DAUSTER; COMPANHIA DAS LETRAS; 256 PGINAS; 39,50 REAIS)
Em outubro, Philip Roth  um dos maiores escritores americanos vivos  surpreendeu o meio literrio ao afirmar que Nmesis, o duro relato sobre a impotncia humana diante da finitude publicado em 2010, seria seu ltimo livro. Fiz o melhor que pude com o que tinha, declarou o autor, que completa 80 anos em maro, sobre sua carreira. Na cola da notcia, vrios dos seus 26 livros passaram a ser relanados. Publicado originalmente em 1977 e h muito fora de catlogo, O Professor do Desejo ganha uma edio brasileira. No romance, velhice e morte  temas frequentes em seus ltimos ttulos  so substitudas pelas lembranas da juventude do professor judeu David Kepesh, da descoberta da sexualidade aos anos na universidade. F de Anton Tchekov e Franz Kafka, o protagonista desiste da carreira de ator (A atividade mais sem sentido, mais efmera e egotstica que existe) para se tornar intelectual. Mas, a cada passo de sua trajetria, h sempre um caso complicado com uma mulher. Com seu humor cido e prosa gil, Roth fala de uma mente brilhante de comportamento infame.

 OS MAIS VENDIDOS VEJA
Escrito para atender a um desejo da mulher do autor, A Cabana vendeu 18 milhes de exemplares no mundo, sendo 3,5 milhes deles no Brasil.  a histria de um homem que, no lugar onde sua filha foi assassinada, tem um encontro com Deus (que aparece sob a forma de uma dona de casa negra) e Jesus Cristo (transmutado num carpinteiro metido a piadista). A inspirao que fez o canadense William P. Young, 57, viajar to longe vem de seu passado: ele cresceu numa tribo no Sudeste Asitico, afirma ter sofrido preconceito racial por ser o nico branco do lugar e ter sido abusado sexualmente. Segundo ttulo de Young, A Travessia (traduo de Fabiano Morais: Arqueiro; 240 pginas; 24,90 reais), oitavo lugar em fico, vendeu 120.000 exemplares em dois meses no Brasil. Na mesma linha, parte da narrativa de uma tragdia para acenar com conselhos. Um magnata em coma acorda num mundo paralelo. Jesus surge para ordenar que ele volte  Terra para curar uma pessoa. Na capa, o autor anuncia: Espero que este livro consiga curar sua alma. Mas s poder aborrece-lo.
BRUNO MEIER

DISCOS
ROOM FOR SQUARES; HEAVIER THINGS; TRY! JOHN MAYER TRIO LIVE IN CONCERT; CONTINUUM; E BATTLE STUDIES, JOHN MAYER (SONY)
 O cantor e guitarrista americano  um caso raro de artista que foi atrapalhado por sua beleza. A carinha de beb e composies como St. Patricks Day, de seu primeiro lbum, fizeram com que casse nas graas de um pblico jovem e essencialmente feminino. Mayer, porm,  mais que um menino para casar (e uma entrevista que deu  Playboy americana em 2010, na qual revelava intimidades de namoradas famosas como Jessica Simpson e Jennifer Aniston, mostrou que ele pode tambm ser desagradvel). Mayer  um compositor de pop adulto, ainda que de alcance popular. Suas canes tm timos arranjos e so tocadas pela nata dos msicos americanos, como o baixista Pino Palladino e o baterista Steve Jordan. A caixa refine seus cinco primeiros discos e traz um libreto com fotos inditas.

BARO VERMELHO (SOM LIVRE)
 A estreia em disco do quinteto carioca ainda  um dos melhores trabalhos do rock nacional em todos os tempos. No pela qualidade instrumental: os integrantes do Baro eram adeptos do rock bsico e sujo e alguns tinham limitaes evidentes (e nem sua volta ao estdio para regravar as faixas sanou as deficincias). Por outro lado, eles tocavam com, digamos, sangue nos olhos. A banda tinha uma noo clara de como o rocknroll pode  e deve  soar. A garra se evidencia em Billy Nego, que no nega a influncia dos Rolling Stones, e Ponto Fraco. E o Baro tinha Cazuza, um letrista que sabia cruzar o blues com a melancolia do samba. Talento que se percebe em Down em Mim, blues que traz os timos versos Da privada eu vou dar com a minha cara / De panaca pintada no espelho / E me lembrar sorrindo que o banheiro  a igreja de todos os bbados. A reedio traz uma faixa indita. Sorte e Azar.

BLU-RAY
FUGA DE ALCATRAZ
(ESCAPE FROM ALCATRAZ, ESTADOS UNIDOS, 1979. WARNER)
 Em 1962, um ano antes de ser fechada, a infame penitenciria de Alcatraz, na Baa de So Francisco, sofreu o que se supe ter sido a nica tentativa bem-sucedida de fuga de sua histria: trs presos sumiram na noite, subindo pelo sistema de ventilao at o teto do imenso complexo, e de l se lanando ao mar em uma jangada improvisada com impermeveis. Nunca mais foram vistos, nem vivos nem mortos, e  portanto impossvel provar se tiveram xito num plano que derrotara tantos antes deles. Dirigido pelo grande Don Siegel (de quem, a partir de Perseguidor Implacvel, Clint Eastwood aprendeu os fundamentos do ofcio de cineasta), o filme traz Eastwood como Frank Morris, um dos quatro homens que implementaram o audacioso, e minucioso, plano de fuga ao longo de dois anos (um deles no conseguiu sair da cela a tempo). Siegel  mesmo um professor e tanto: prova que sem fanfarra, mas com um impecvel senso de ritmo,  possvel fazer at uma plateia que j conhece o fim da histria roer as unhas de nervoso.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
3. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
4. Morte Sbita  J.K. Rowling. NOVA FRONTEIRA
5. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA
6. Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA
7. Finale  Becca Fitzpatrick. INTRNSECA
8. A Travessia  William Young. 
9. The Walking Dead  O Caminho para Woodbury.  Jay Bonansinga e Robert Kirkman. Galera Record
10.   As Vantagens de Ser Invisvel  Stephen Chobosky. ROCCO

NO FICO
1. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verissimo. OBJETIVA
2. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA
3. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
4. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kevin Maurer. PARALELA 
5. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
6. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
7. Banzai, Corinthians!  Radio Bandeirantes. Panda Books
8. Coraes Descontrolados  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR 
9. Cozinha de Estar  Rita  Lobo. PARALELA
10. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER
2. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
3. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
4. O Poder do Hbito  Charles Duhigg. OBJETIVA
5. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
7. Viver com F  Cissa Guimares. CASA DA PALAVRA
8. Manual dos Jovens Estressados  Augusto Cury. PLANETA
9. Os Segredos da Mente Milionria  T. Harv Eker. SEXTANTE
10. A Arte da Guerra  Sun Tzu. VRIAS EDITORAS


7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  ATO FINAL
     Walmor Chagas no quis ser surpreendido entre o primeiro e o segundo ato. Tomou nas mos a agenda da morte e a fez acontecer quando quis, como quis. O grande ator foi encontrado morto no hotel-fazenda de sua propriedade, em Guaratinguet (SP), onde morou nos ltimos anos, na sexta-feira dia 18. Tinha 82 anos e, at onde se sabe, embora combalido pela idade e pelo diabetes, no enfrentava grave crise de sade. Tambm no enfrentava, at onde os mais prximos puderam testemunhar, crise moral insuportvel. S existe um problema filosfico realmente srio: o problema do suicdio, escreveu Camus. O suicdio de Walmor foi do tipo que no remete a uma circunstncia, um azar da vida, um desespero ou uma crise intransponvel, mas  questo do suicdio em si mesma.
     O ator foi encontrado sentado numa cadeira, o revlver com que disparara um tiro na cabea no colo, entre as duas mos. O fato de ter escolhido sentado  eloquente. No se prostrou, impotente, diante da inimiga. Sentado, proclamava que a encarou em seus prprios termos, no lugar e na posio que bem entendeu. A morte que se sujeitasse s condies que, dono do prprio nariz, estabeleceu. Num outro sinal de liberdade e altivez, sempre segundo o que se pde saber, em assunto to ntimo, tambm no deixou bilhete de explicao para seu gesto. No entendeu dever explicaes a ningum. So assim os suicidas cabais, que no tm nem delicadezas nem acusaes a distribuir, no fundo uns ltimos fiapos de apego  vida. O deles  um suicdio que se basta.
     Walmor Chagas foi casado com Cacilda Becker, o grande nome feminino do teatro brasileiro  sua poca. Cacilda morreu em 1969, aos 48 anos, entre o primeiro e o segundo ato da pea Esperando Godot, de Samuel Beckett. Ou melhor: teve um derrame, e foi morrer cinco semanas depois, mas no saiu do coma. Foi como se morresse entre o primeiro e o segundo ato. Esperando Godot, da poca do existencialismo e do teatro do absurdo, transcorre sem outro artifcio seno o dialogo aparentemente sem rumo entre dois vagabundos. Estragon e Vladilmir, enquanto esperam por um tal Godot, que no se sabe quem  nem se saber, at o fim da pea.
     Cacilda fazia Estragon, e quem fazia Vladimir era Walmor. No podia haver morte mais desorganizada. Cacilda foi recolhida ao hospital nos trajes andrajosos de Estragon. Imagina-se que Walmor deve ter demorado para se livrar dos andrajos de Vladimir. Nem  preciso imaginar, vai de si a situao de perplexidade, de alvoroo, de atropelo, de improviso. Estragon foi arrancado de Vladimir de uma maneira que no estava no script, e Cacilda foi arrancada de Walmor de maneira que menos ainda estava no script. O teatro do absurdo saltava do palco para a vida real. O pblico ficou esperando por um segundo ato que, como Godot, no veio.
 tentador supor que o tipo de morte escolhido por Walmor decorre do tipo de morte que vitimou Cacilda. Sobre Cacilda a morte desabou em sua verso de suprema traioeira das gentes. Esperava-a na coxia, e atacou-a de emboscada. Nem o segundo ato a deixou encenar, quanto mais o muito que lhe restava de vida e de teatro. Walmor, naquela sexta-feira em Guaratinguet, tinha decidido que, em vez de esper-la atacar, tomaria a iniciativa. Tomou caf da manh como de hbito, banhou-se, depois deixou-se ficar ao sol. No almoo comeu um macarrozinho bem fininho, com molho de shoyu, segundo contou um amigo ao programa Fantstico. Horas depois, sozinho em casa, sentou-se em uma cadeira, a arma na mo. Adivinha-se que o plano j lhe girasse na cabea haveria dias, talvez meses. Foi executado com mtodo, sem alvoroo nem improviso.
     Amigos informaram que a decadncia fsica comeava a limitar os movimentos do ator e que, com a vista atacada por complicaes do diabetes, ele
enxergava cada vez pior. So fatores que podem ter ajudado na deciso: ele teria se antecipado ao aprofundamento dos estragos. Mas, sobretudo, teria concludo que o estoque de vida que lhe coubera, a vida em seus mltiplos aspectos, no apenas na questo da sade, se esgotara. Cacilda, atraioada, deixou tudo pela metade: a pea que representava, a carreira, a vida. Ficou intocado o enorme estoque que ainda tinha para gastar, e, na histria das artes cnicas do Brasil, entrou com uma pgina truncada. Walmor no foi surpreendido entre o primeiro e o segundo ato porque no havia segundo ato a representar. A pea j tinha terminado. Ele prprio assim determinara, ao tomar nas mos a autoria do desfecho.


